O Rio Grande do Norte já
registra, de agosto deste ano até ontem, 35 casos de crianças nascidas
com microcefalia no estado. Entre os bebês que apresentaram a má
formação congênita está a filha de Isabele Cristina, 19, moradora do
Conjunto Nova Natal, na Zona Norte. A menina, que nasceu na tarde da
última quarta-feira (11), não resistiu às complicações causadas pela
deformidade no cérebro e faleceu dois dias após ter vindo ao mundo, na
sexta-feira (13).
Ainda abalada e repousando, a mãe conversou com a reportagem do
NOVO. Ela conta que apresentou sintomas de dengue quando ainda estava no
quarto mês de gestação (como manchas no corpo, febre, dor nas
articulações e dores de cabeça constantes), mas que não pode afirmar que
foi essa a doença que lhe acometeu, já que nenhum exame foi feito
quando deu entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Pajuçara,
em maio deste ano.
Com a descoberta da anomalia da filha, agora ela acredita que pode
ter tido, na realidade, o zika vírus, enfermidade que possuí sintomas
semelhantes aos da dengue. O mal, que também é transmitido pelo mosquito
Aedes aegypti, pode ser o principal fator para o aumento repentino no
número de casos de microcefalia em todo o Nordeste.
Tanto as secretarias estaduais, quanto o Ministério da Saúde, ainda
não puderam determinar com precisão a causa dessas ocorrências. No
entanto, a suspeita recai sobre a nova doença, que chegou ao Brasil no
início deste ano, uma vez que a maioria das mulheres que deram à luz
crianças com a microcefalia no Brasil apresentou sinais da zika durante a
gravidez.
Isabele afirma que este também pode ter sido o seu caso, já que o
atendimento na UPA, segundo explica, foi bastante rápido. “Tinha muita
gente na hora e eles só olharam pra mim e disseram: ‘é dengue!’.
Receitaram paracetamol, só para controlar os sintomas, e me mandaram
para casa, descansar”, relembra.
A doença demorou aproximadamente duas semanas para desaparecer por
completo. Depois disso, a dona de casa conta que passou por todos os
exames do pré-natal normalmente e que nenhum identificou a má formação
cefálica no feto. O único que chegou a apontar alguma deformidade foi o
exame morfológico, que detectou uma irregularidade nos membros do bebê.
“O [ultrassom] morfológico mostrou que os pezinhos e as mãozinhas dela estavam tortos, mas não passou disso”, declara.
Foi apenas no parto que a mãe conta ter tido conhecimento do
problema da filha que, além da microcefalia, também nasceu com
hidrocefalia, que é o aumento do fluído cefálico dentro da cavidade
craniana. As duas anormalidades em conjunto foi o que ocasionou o óbito
da menina, que faleceu devido a uma insuficiência respiratória seguida
de uma parada cardíaca.
A dona de casa também relata que funcionários da maternidade Santa
Catarina, onde foi realizado o parto, tentaram esconder a real condição
da criança, levando-a quase que imediatamente após o nascimento para a
sala de UTI.
“Eu ouvi alguém dizendo: ‘mais uma que nasce com o mesmo problema’.
Depois uma enfermeira se aproximou e falou que minha filha tinha
nascido com um problema. Eu disse que já sabia, que ela tinha nascido
com o pezinho torto. Mas ela disse: ‘não, sua filha nasceu assim’. Me
mostrou rapidamente, enrolou e levou para a UTI”, disse.
“Eu só soube que ela tinha microcefalia e hidrocefalia hoje
[segunda-feira], porque um médico veio até aqui, saber como eu estava e
me explicar o que aconteceu”, afirmou a jovem dona de casa.
O NOVO tentou entrar em contato com a direção do Hospital Santa
Catarina na tarde de ontem, mas foi informada pela recepcionista da
unidade que não havia ninguém no momento para esclarecer as dúvidas. O
sepultamento da filha caçula de Isabele Cristina, que já possuí um filho
com seis anos de idade, foi realizado no último sábado.
Hospital de referência ainda não está atendendo casos da doença
O Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), definido na última
sexta-feira como unidade de referência para o acompanhamento dos casos
de microcefalia registrados no Rio Grande do Norte, ainda não iniciou o
atendimento às crianças nascidas com o problema. De acordo com a direção
do hospital, a Secretaria do Estado da Saúde Pública (Sesap) não
determinou, até o momento, que protocolo deve ser seguido após o
acolhimento desses pacientes pela unidade.
Segundo o superintendente Stênio Gomes, nenhuma informação
adicional foi repassada para a administração desde que foi confirmado,
pelo Governo do Estado, que o HUOL seria o responsável por receber esses
pacientes. Através da assessoria de comunicação, ele informou também
não ter recebido nenhuma comunicação oficial por parte da Sesap.
Em entrevista ao NOVO na edição do último sábado (14), entretanto,
Stênio declarou que o Onofre Lopes estaria preparado para realizar o
acompanhado das mães e crianças que tenham a má formação congênita, mas
que ainda não sabia de que forma isso será feito.
“Ainda não temos uma ideia precisa do que se demandaria do hospital
para apoiar a secretaria diante desses casos. Mas, como estamos ligados
ao SUS (Sistema Único de Saúde) e temos uma série de atividades junto
com a pasta, digo que o hospital está disponível para atender as
demandas”, esclareceu.
O depoimento do superintendente, porém, contrasta com as
informações repassadas pelo setor de comunicação da Sesap. A assessoria
da pasta declarou, em nota, que as mães com filhos nascidos com
microcefalia já podem procurar a unidade básica de saúde mais próxima
para que, a partir daí, sejam encaminhadas para o hospital de
referência.
Ainda de acordo com o comunicado, o HUOL foi escolhido por já ser
considerado um hospital modelo para o acompanhamento de bebês com
problemas cefálicos no RN. O pacto teria sido firmado entre a
Coordenadora Estadual de Promoção à Saúde, Cláudia Frederico, e a
direção da unidade em um encontro não oficial.
“Houve uma conversa informal com a direção de pediatria do HUOL, na
última sexta-feira (13), que se colocou à disposição para atender a
esta demanda”, disse a Sesap em nota.
Desde agosto até ontem, 35 crianças haviam nascido com microcefalia
no estado. Até então a media anual não passava de dois casos no RN.
Para atender a esse repentino aumento no número de casos da doença, o
Onofre Lopes conta atualmente com um quantitativo de 30 leitos,
localizados em uma ala no primeiro andar do hospital. No entanto, até o
fechamento desta edição, nenhuma mãe havia procurado a unidade buscando
orientação.
A microcefalia consiste em um mau desenvolvimento do crânio do
feto, que apresenta um perímetro cefálico (PC) menor que 33 centímetros,
tamanho considerado normal para a criança ao nascer. Em algumas
situações, a anomalia pode ser identificada ainda no pré-natal, através
dos exames de ultrassom, mas o mais comum é que o bebê apenas seja
diagnosticado com o trauma após o parto.
Muitas crianças podem sobreviver com a microcefalia, porém a má
formação do cérebro acaba por ocasionar uma série de outras dificuldades
como problemas cardíacos, respiratórios e demência.
Do novo Jornal
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